Os novos moradores

Sem tirar nem pôr

(…) (p. 145) “Jovens de hoje, jovens de qualquer tempo – anjos camicases, bichos sem coleira. Uma simples brecha para se aproximarem do amor que almejam é o quanto basta. Atiram-se na aventura movidos pela curiosidade, pelo excitamento do aprendizado a dois. Não medem consequências, porque o ato de amar é bem maior que o maior risco. Quando suas escolhas vão pela contramão do que é tido por certo, dão de ombros e seguem adiante. Para se defenderem, se põem à margem. E silenciam. Como revelar vontades secretas ainda que passageiras, desejos proibidos? Silenciam não tanto pela censura alheia, mas bem mais pelos quereres  desencontrados. Sim, os quereres desencontrados  – de todos os que habitamos  este temperamental planeta. Se, em passe de mágica, os infinitos quereres coincidissem, nossas fantasias se manifestariam às claras. Livres, soltas, permitidas. Nos amaríamos uns aos outros sem culpas, e a humanidade cumpriria o seu propósito. Mas assim, do jeito que somos, há que se recorrer às guerras – individuais ou coletivas -, há que se inventar o pecado, há que se esconder o fato, há que se exibir a aparência – ancestral desacerto de nossa trágica incompletude.”

Do livro “Os novos moradores” de Francisco Azevedo